Não gosto da palavra "moral".
Ela me remete à uma definição imprecisa do "certo" e do "errado", que por sua vez são também definições imprecisas do que deve ser feito ou não. Mas é um fato que vivemos em sociedade, e que para viver em sociedade é necessário seguir algumas regras a fim de que os relacionamentos não se deteriorem. Assim, podemos definir moral como aquele conjunto de regras essenciais à convivência pacífica.
Fazendo uma análise econômica da moral, podemos dizer que quanto melhor a qualidade dos relacionamentos das pessoas, maior tende ser a satisfação das mesmas em diversas áreas. Pessoas que se relacionam bem trabalham melhor, portanto são mais produtivas e em última consequência, mais ricas. Essa lógica também está ligada ao conceito de defesa. Quanto mais eu confio em uma pessoa ou em um grupo, menos eu preciso me defender deles, e portanto mais eu posso produzir.
No Brasil, sofremos de um processo delicado de desnutrição moral. Muitas pessoas não conseguem ter essa visão de que seguir regras é importante para o bem de todos, inclusive do delas. Isso ocorre provavelmente por vários motivos.
Em primeiro lugar, fomos um povo que nasceu sob o massacre da ganância e da exploração. O Brasil não começou como uma terra a ser povoada, e sim como um depósito a ser explorado. Os brancos que para cá vieram lutavam contra uma natureza hostil, e muito provavelmente passaram fome. Tinham os índios, que eram aprisionados como escravos, destituídos de sua terra e por isso é muito provável que tenham passado fome também. Depois vieram os escravos, que também devem ter passado fome pela condições sub-humanas à qual eram submetidos. Era uma fome real, cortante, injusta em um país tão rico. Mas esse cenário foi se repetindo, ano após ano, década após década, século após século e acabou nos transformou em um país de famintos.
Essa fome obrigava as pessoas a sobreviverem na base da luta. Era lutar ou morrer.
Com o passar dos anos a fome foi cessando, e cada vez mais rápido, a ponto de termos terminado o século XX em um processo considerável de incusão social e redução da fome. A mobilização social em torno disso é imensa. Quem não se lembra do nosso querido Betinho que iniciou um grande movimento contra a fome no Brasil. Depois vieram algumas ações governamentais que, muito embora venham sendo alvo de corrupção e ineficiência que sugam seus recursos geraram resultados significativos, segundo dados da FGV e do IBGE.
Nossa fome física está acabando, mas séculos de fome deixaram marcas profundas na nossa sociedade, e uma delas é a desnutrição moral, essa incapacidade que grande parte do nosso povo tem de entender que não existe risco da fome real, mas mesmo assim eles continuam se comportando como esfomeados.
Um exemplo disso foi a morte dos franceses Christian Pierre Doupes, Delphine Douyère e Jérôme Faure. Essas três pessoas faziam parte de uma ONG chamada Terra'Ativa, que tinha como objetivo promover a inserção social de meninos de rua. Estavam no Brasil há mais de 10 anos. Acolheram e deram esperança a muitos jovens abandonados. Um deles, inclusive, foi quase que "adotado" pelo casal Christian e Delphine. Társio Wilson Ramirez tinha 15 anos e recebeu da ONG não apenas carinho, educação e comida. Quando cresceu, recebeu um emprego. Társio trabalhava para ONG. Tinha carteira assinada, salário, dignidade. Mas Társio era um desnutrido moral. Não entendia que tinha recebido uma oportunidade para se tornar uma pessoa de bem para toda a vida, e a ganância acabou fazendo com que Társio eliminasse justamente aqueles que lhe acolheram Provavelmente movido por ganância, Társio trocou um futuro digno pela possibilidade de um "dinheirinho" fácil. Mais do que roubar, Társio matou e queimou Christian e Delphine.
Alguns podem alegar que os anos de fome e abandono que Társio passou distorceram sua moral. Mas Társio não é o único exemplo de desnutrição moral. Nossa sociedade mostra milhares de exmplos todos os dias, em todas as camadas sociais, com todo tipo de gente.
O que dizer de nossos políticos e juízes corruptos? Pessoas que ganham milhares de reais por mês, desfrutam de boas condições de trabalho, e, em vez de focar naquilo que deveriam fazer, defender o povo, dedicam seu tempo em aumentar seu poder político e financeiro.
Mas os políticos são apenas uma fatia da nossa sociedade, que admite práticas oriundas da desnutrição moral. Por exemplo, pessoas "normais", de bem, que aceitam uma "boquinha" no serviço público. Conheço pessoas que tem uma retidão moral incrível da boca para fora, mas acham certo dar um glope aqui, arrumar um emprego alí, receber sem trabalhar, conseguir um favor de um político, subornar um guarda de trânsito, estacionar em lugar proibido, furar fila, avançar o sinal vermelho. Tudo isso é exemplo de desnutrição moral, pessoas que se comportam como se precisassem disso para comer. Não, elas não precisam disso para comer. Cada centavo que essas pessoas desviam do governo é menos dinheiro destinado para educação, saúde e segurança, serviços essenciais que deveriam se fornecedios pelo governo que elegemos democraticamente, mas que por desnutrição moral não se importa em oferecê-los. Cada atitude anti-social que essas pessoas cometem causa mais dor, ódio, ira, desejo de vingança no próximo, e explodem os conflitos.
Fica a pergunta no ar: que é necessário para acabarmos com essa desnutrição moral em nossa sociedade?