Eu tinha uns 10 anos de idade. Morava na Ilha do Governador, um bairro do Rio de Janeiro, e um dia estava passeando com a minha avó quando passamos em frente a um supermercado.
Era uma prédio grande, ficava na esquina de uma pequena rua e da avenida mais importante do bairro. No segundo andar do prédio havia uma parede toda envidraçada, que da rua se podia se ver do lado de dentro. Lá havia um restaurante, com mesas parecida com as de lanchonete fast-food.
Quando criança eu sempre gostei de fast-food (que criança não gosta), e eu perguntei para minha avó:
- Vó, aquilo é uma lanchonete?
Ela disse que não, era o refeitório do supermercado.
- Só do supermercado? A gente não pode ir lá? - perguntei, imaginando já hamburgueres e batata-frita.
- Não - disse a minha avó - só quem almoça lá é quem trabalha na empresa.
- Como assim - perguntei.
- Se você é funcionário da empresa, na hora do almoço você vai lá e almoça.
- De graça?
- Sim, de graça.
Desse dia em diante eu pensei "um dia ainda vou trabalhar nessa empresa para poder almoçar nesse restaurante". Essa empresa era a Casas Sendas.
Dez anos depois, a profecia se realizou...
Eu era um jovem de 20 anos de idade e fui contratado para ajudar na estruturação de um departamento de auditoria interna no Grupo Sendas.
Foi uma época de aprendizado intenso. A Sendas era a maior rede de supermercados do Rio de Janeiro e uma das maiores do Brasil. Era uma empresa dinâmica, inovadora e eu tive a chance de ver algumas revoluções que ela fez no varejo brasileiro, como a criação de um conceito novo de hipermercado (Bon Marché que virou Extra), e novas lojas com formato de auto-atendimento, como atacado (Estoque) e materiais de construção (CasaShow).
Arthur Sendas foi um revolucionário!
Mas o principal feito desse homem, mas do que uma revolução no varejo, foi a revolução na vida das pessoas que trabalhavam para ele. Dr. Arthur tinha uma visão incrivel do que era manter talentos e ao mesmo tempo colaborar com um mundo melhor. Para isso ele usava a EDUCAÇÃO!
Apenas para destacar uma das políticas mais arrojadas em benefícios que eu já vi, no Grupo Sendas, funcionários com mais de 5 anos de empresa tinham direito a uma bolsa de estudos para cursos superiores em áreas estratégicas, que poderia chegar a 100% do valor da mensalidade.
Ah, isso tem em outras empresas? Ok, mas na Sendas, funcionários com mais de 10 anos de empresa tinham direito à uma bolsa de até 100% em QUALQUER CURSO DE NÍVEL SUPERIOR para seus filhos. Conheci muitos casos de açougueiros, repositores e segurança que tiveram filhos formados em direito e medicina. Eram pessoas que tinham orgulho de participar dessa família, que davam o melhor de si pela empresa para poder dar o melhor para seus filhos.
E a Sendas era realmente uma família. Lembro que uma das principais atividades do Dr. Arthur era visitar as lojas, e em cada visita ele era recebido pelos funcionários com um carinho e respeito imenso. Dr. Arthur era um líder incentivador, mas era gente como a gente. O ponto alto desses encontros era o almoço no refeitório. Dr. Arthur almoçava junto com os funcionários. Naquele mesmo restaurante, que eu tinha visto quando criança!
Dr. Arthur era mais que um empresário. Sabia da sua responsabilidade em alimentar os brasileiros, comida para os pais, educação para os filhos, dignidade para as pessoas.
Obrigado Dr. Arthur!
Em tempo: Li na coluna do Ancelmo Góis uma ironia sobre o marginal que assassinou o Dr. Arthur Sendas:
"Sendas sustentou seu assassino a vida inteira. Pagou a comida, os estudos e depois deu-lhe emprego." http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/post.asp?t=o_mesmo_time&cod_post=134754&a=98 (para leitores cadastrados)
Isso é mais um exemplo do conceito de desnutrição moral que falei quando da morte dos franceses em Copacabana, pelo menino de rua que eles recolheram e deram educação (veja em Pour les françaises e Desnutrição Moral).